Com auditório lotado, 2º Seminário Agosto Lilás destaca a força e o protagonismo das mulheres
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O 2º Seminário Agosto Lilás deixou uma mensagem sobre o papel de cada pessoa na transformação da realidade das mulheres: não basta agir depois que a violência acontece. É necessário trabalhar com prevenção, educação e informação
“Lages deve ser exemplo para os outros municípios com a primeira e única cidade do Estado que conta na sua estrutura administrativa com uma Secretaria de Políticas para a Mulher e para a Pessoa Idosa. Eu tentei por muitos anos e oportunidades em Joinville, mas infelizmente nunca tive o apoio necessário da classe política que é composta majoritariamente por homens na maior cidade do estado”. A declaração da vice-governadora de Santa Catarina, Marilisa Boehm, marcou a noite da última segunda-feira (24 de agosto), durante o 2º Seminário Agosto Lilás, realizado pela Prefeitura de Lages, por meio da Secretaria de Políticas para a Mulher e para a Pessoa Idosa, em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e a Rede de Apoio ao Enfrentamento das Violências.
O evento lotou o Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) da Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac) e reuniu autoridades, profissionais que atuam na rede de proteção, representantes de instituições e comunidade para uma noite de reflexão, informação e valorização do protagonismo feminino. Com o tema “+ Mulheres Vivas, Livres, Informadas e Protegidas”, o seminário integrou a programação do Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
A programação começou com a apresentação da acadêmica do curso de Enfermagem da Uniplac, Diessy Carolina Muniz Morandini, que interpretou “Maria Maria”, composição de Fernando Brant, com melodia de Milton Nascimento. A música, que ocupa lugar de destaque na história e na cultura brasileira, traduz a força, a resistência e a capacidade de superação das mulheres diante das adversidades. A escolha da canção abriu a noite estabelecendo uma conexão entre arte, emoção e a mensagem central do seminário: a necessidade de construir uma sociedade em que todas as mulheres possam viver com liberdade, respeito, segurança e dignidade.
A presença feminina também esteve representada por quatro mulheres acolhidas pela Casa de Apoio à Mulher Vítima de Violência Maria Rosalina Rodrigues. A participação delas deu ainda mais significado ao encontro, aproximando o debate das histórias reais de mulheres que precisaram buscar acolhimento, proteção e uma nova perspectiva para suas vidas.
Protagonismo feminino em diferentes espaços
Além da vice-governadora Marilisa Boehm, o seminário contou com a participação da desembargadora do Tribunal de Justiça de Santa Catarina Hildemar Meneguzzi de Carvalho e da promotora de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina Daniela Bock Bandeira. As três palestrantes apresentaram diferentes perspectivas sobre direitos, proteção, prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres.
Hildemar Meneguzzi de Carvalho possui trajetória na área jurídica e atuação relacionada à promoção dos direitos humanos e à proteção das mulheres. Já Daniela Bock Bandeira é promotora de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina, coordenadora do Centro de Apoio da Infância, Juventude e Educação do MPSC, professora da Escola Superior do Ministério Público e integrante da Comissão de Equidade do órgão. Entre suas atuações está o projeto “Audiência de acolhimento e proteção das vítimas de violência doméstica: escutar para acolher, entender para proteger”, vencedor do Prêmio Boas Práticas do XXVI Congresso Nacional do Ministério Público.
A trajetória da vice-governadora Marilisa Boehm ganhou atenção especial durante a programação. Natural de Joinville, formada em Direito e pós-graduada em Ciências Criminais, ela foi fundadora da Delegacia de Proteção à Mulher de Joinville, onde atuou como titular entre 1990 e 2014. Também exerceu a função de delegada regional de Polícia e participou da criação da Casa Viva Rosa, destinada ao acolhimento de mulheres vítimas de violência, além de contribuir para a implantação do Protocolo de Atendimento às Pessoas Vítimas de Violência Sexual.
Todos os poderes unidos pela proteção
Presente ao seminário, a prefeita Carmen Zanotto destacou a união das instituições no enfrentamento da violência contra a mulher. Para ela, a atuação articulada entre os diferentes poderes e órgãos públicos é essencial para que a mulher encontre informação, acolhimento, proteção e caminhos para reconstruir sua vida. “A violência contra a mulher não é uma responsabilidade de uma única instituição. Hoje temos aqui o poder estadual, o município, o Legislativo e o Judiciário caminhando juntos, cada um dentro da sua função, para garantir que as mulheres tenham seus direitos respeitados e encontrem uma rede preparada para acolher e proteger. O Conselho Municipal dos Direitos da Mulher também tem uma atuação muito importante e se soma a essa rede, trazendo a participação da sociedade e a defesa permanente dos direitos das mulheres”, diz.
A relação da prefeita com essa pauta, porém, começou muito antes de chegar ao Executivo municipal. Ainda quando era secretária municipal de Saúde de Lages, há mais de 20 anos, Carmen participou das primeiras discussões no município sobre a violência doméstica e a necessidade de ampliar a atenção às mulheres vítimas de violência.
Mais tarde, eleita para a Câmara Federal, levou essa experiência para Brasília e passou a atuar nas comissões e debates relacionados aos direitos das mulheres em âmbito nacional. A trajetória construída ao longo de mais de duas décadas foi destacada durante o seminário como parte de uma história de participação na formulação e defesa de políticas públicas voltadas às mulheres.
Políticas públicas que chegam à vida real
A secretária de Políticas para a Mulher e para a Pessoa Idosa, Suzana Duarte, ressaltou que nenhuma estatística é apenas um número. Por trás de cada registro de violência existe uma mulher, uma história, uma família e, muitas vezes, uma trajetória marcada pelo medo e pelo silêncio. “Por trás de cada número, de cada estatística, existe uma mulher com uma história. É por isso que precisamos olhar para esses dados com humanidade e transformar essa realidade por meio de políticas públicas que cheguem à vida das mulheres, que acolham, orientem, protejam e abram caminhos para que elas possam seguir em frente. Em Lages temos uma rede de proteção e apoio que trabalha com programas, projetos e serviços voltados às mulheres, e esse trabalho é construído diariamente por muitas mãos. Quero também agradecer às servidoras e aos servidores da Secretaria, que se dedicam todos os dias a essa missão e fazem essas políticas acontecerem”, afirma.
A secretária também apresentou, durante sua participação, as iniciativas, programas e serviços desenvolvidos pela rede de proteção e apoio de Lages, destacando a atuação integrada de diferentes instituições. O seminário reuniu representantes de órgãos como Ministério Público, Poder Judiciário, Polícia Civil, Polícia Militar, Rede Catarina, Procuradoria Especial da Mulher da Câmara de Vereadores, Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Secretaria de Assistência Social e demais entidades parceiras.
“Tecendo um Futuro de Esperanças” transforma palavras em acolhimento
Um dos momentos mais simbólicos do seminário foi a ação “Tecendo um Futuro de Esperanças”. Cada participante recebeu um pedaço de tecido para escrever uma palavra de força, acolhimento ou esperança destinada a uma mulher que enfrenta uma situação de violência, ou ainda uma palavra que represente o futuro que a sociedade deseja construir: um futuro livre da violência contra as mulheres.
A dinâmica partiu de uma pergunta simples, mas carregada de significado: “Que palavra você deixaria para uma mulher que precisa de força hoje e que palavra você escolheria para o futuro que queremos construir? ”. Ao final, os pedaços de tecido serão unidos para formar um grande símbolo coletivo.
A proposta transforma mensagens individuais em uma construção conjunta. Cada palavra representa um gesto de acolhimento. Cada pedaço de tecido, uma experiência ou desejo e o conjunto simboliza a capacidade de uma sociedade inteira para se unir e construir relações baseadas em respeito, proteção e dignidade.
Texto: Ari Junior
Fotos: Marcos Heitor de Carvalho
