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Da mobilização ao diálogo: estudantes e instituições definem ações de segurança no entorno da Udesc Lages

05/09/2026 11:25

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Uma semana depois da manifestação realizada em frente ao campus, oito estudantes do Coletivo Feminino participaram de uma reunião para dar continuidade às demandas apresentadas por mais segurança. O encontro ocorreu nessa quinta-feira, 3, e reuniu representantes do Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), das polícias Militar e Civil, do poder público municipal e do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher.

A reunião resultou em uma série de encaminhamentos a partir das reivindicações apresentadas em 27 de agosto. Entre eles, estão reforço das rondas policiais e da presença da cavalaria, ações voltadas à ampliação do videomonitoramento e à melhoria da iluminação do Bairro Conta Dinheiro, reuniões com moradores do entorno, criação de um grupo de trabalho com encontros mensais, produção de informes e elaboração de protocolos internos na Udesc Lages. 

Para a estudante de graduação Maria Eduarda Subutzki, a possibilidade de apresentar essas questões diretamente aos representantes envolvidos marcou uma nova etapa da mobilização. “Foi muito importante sermos ouvidas e perceber que as nossas reivindicações estão sendo consideradas. Acreditamos que esse diálogo é apenas o primeiro passo, de muitos que ainda precisamos dar, para construir um ambiente realmente seguro para nós, estudantes, podermos fazer aquilo que viemos à universidade para fazer: estudar, produzir conhecimento e construir nosso futuro”, destaca. 

As preocupações compartilhadas há anos pelo Coletivo Feminino ganharam força após acontecimentos recentes relatados pelas acadêmicas. Desde então, o debate passou a incluir, além do aumento da vigilância, respostas permanentes, canais de orientação e uma atuação conjunta entre universidade, segurança pública e poder público.

Responsabilidades dentro e fora do campus 

Parte do encontro concentrou-se em diferenciar as medidas que podem ser adotadas pela própria Udesc Lages daquelas que dependem da atuação do poder público nas ruas e bairros próximos ao campus. Na área externa, entre os encaminhamentos, estão o reforço das rondas policiais e o emprego da cavalaria. A ampliação do videomonitoramento e as melhorias na iluminação da região também foram incluídas entre as ações a serem articuladas com a administração municipal.

A proposta inclui ainda aproximar os moradores da discussão. Uma das medidas levantadas foi a realização de reuniões com a comunidade do entorno, para que situações percebidas no bairro também possam ser comunicadas às autoridades e consideradas no acompanhamento das ações na região. No campus, o debate avançou para medidas de prevenção e organização institucional. Entre os encaminhamentos, estão a estruturação de um protocolo interno e do protocolo “Não é Não”, além da produção de informes para orientar a comunidade acadêmica. A criação de um grupo de trabalho com reuniões mensais pretende manter os diferentes setores em contato e acompanhar as ações definidas no encontro.

O diretor-geral da Udesc Lages, Adelar Mantovani, afirma que a Universidade já trabalha para articular as medidas internas com aquelas que dependem de outros órgãos. “Diversas ações já estão em curso para viabilizar a implementação de um circuito de segurança integrado, tanto no perímetro externo quanto nas dependências do campus”, ressalta.

Para a estudante de graduação Anna Dably Rodrigues Azevedo, a definição de medidas concretas representa um avanço em relação às preocupações que levaram as mulheres à mobilização. “Considero essas medidas importantes porque são ações concretas de prevenção e segurança, que podem contribuir para inibir situações de assédio, perseguição e violência, além de proporcionar maior sensação de segurança para estudantes, especialmente para as mulheres que circulam pelo campus e pela região”, relata.

Anna também avalia que o encontro não encerra a discussão. Entre os compromissos destacados pela estudante, estão o reforço das rondas e da cavalaria pela Polícia Militar e a necessidade de as próprias acadêmicas realizarem o registro formal das ocorrências.

Entre o relato e o boletim de ocorrência

Um dos pontos centrais do debate expôs um desafio que acompanha a discussão desde a manifestação: nem tudo o que é relatado entre as estudantes chega aos registros oficiais. Durante a reunião, acadêmicas explicaram que relatos de abordagens e perseguições são compartilhados no grupo do Coletivo, mas nem sempre resultam em boletins de ocorrência. Entre os motivos apresentados estão a percepção de que episódios anteriores não tiveram o retorno esperado e o desestímulo social em procurar ajuda. Essa ausência de registros cria uma diferença entre os relatos compartilhados pelas participantes e os dados disponíveis para orientar a atuação das forças de segurança.

Diante dessa diferença, representantes da Polícia Civil e da Polícia Militar ressaltaram que a formalização das ocorrências é necessária para reconhecer padrões, localizar possíveis autores e direcionar a atuação dos órgãos de segurança.

A delegada regional da Polícia Civil, Luciana Rodermel, destaca que mesmo situações em que a vítima não é capaz de identificar o autor devem ser registradas. Segundo ela, a recorrência de boletins sobre ocorrências semelhantes pode reunir elementos que auxiliem na identificação de possíveis autores e nas investigações.

A aspirante Regiane Rodrigues, da Polícia Militar de Santa Catarina, reforça que esses dados também influenciam o planejamento do policiamento. “É imprescindível que as ocorrências sejam devidamente registradas e comunicadas aos órgãos competentes, pois nosso trabalho é fundamentado na análise de dados”, pontua.

A secretária municipal de Políticas para a Mulher e para a Pessoa Idosa, Suzana Duarte, amplia a discussão para a articulação entre os diferentes órgãos e instituições. “A difusão dessas informações é indispensável, pois permite que o poder público, os órgãos de defesa e as instituições possam atuar de forma efetiva. Nesse sentido, a manifestação realizada pelas estudantes do CAV/Udesc foi um passo fundamental”, afirma.

A reunião também apontou a necessidade de aproximar moradores do entorno e ampliar a comunicação com os órgãos responsáveis, para que ocorrências na região possam chegar aos canais formais e contribuir para o planejamento de medidas de segurança. A possibilidade de uma reunião com moradores e de mais integração com a comunidade apareceu entre as propostas discutidas no encontro. As estudantes também se comprometeram a ampliar o registro formal das ocorrências por meio de boletins de ocorrência, para que os episódios relatados também possam integrar os dados oficiais.

Segurança para além da vigilância

As discussões não ficaram restritas a câmeras, iluminação ou presença policial. A pesquisadora Mareli Eliane Graupe, coordenadora do Grupo de Pesquisa Gênero, Educação e Cidadania na América Latina (Gecal), da Uniplac, trouxe ao encontro uma perspectiva baseada em estudos sobre gênero e prevenção às violências. Segundo Mareli, respostas efetivas dependem da articulação entre a universidade, a segurança pública, os poderes Executivo e Legislativo, os conselhos e os serviços especializados. Ela também destaca a importância de procedimentos internos claros para prevenir situações de violência e orientar os encaminhamentos quando elas ocorrem.

A pesquisadora chama atenção para uma diferença entre proteção e segurança e defende que as mulheres tenham assegurado o direito de circular nos espaços públicos, independentemente do horário. Para ela, medidas de vigilância precisam caminhar ao lado de ações educativas e de prevenção que envolvam toda a comunidade.

Uma mobilização que será acompanhada mensalmente

Para a estudante de pós-graduação Liandra Sartor da Silva, o principal significado do processo está justamente na passagem de uma experiência individual para uma discussão coletiva. Ela avalia que a mobilização permitiu acolher mulheres que passaram por situações de insegurança e demonstrar que essas experiências não precisam permanecer isoladas. “Estar juntas foi uma forma de acolher quem sofreu, demonstrar que nenhuma de nós está sozinha e reafirmar que temos o direito de estudar, trabalhar e circular com segurança dentro e no entorno da universidade”, afirma.

O encontro também ampliou uma articulação iniciada antes dos acontecimentos das últimas semanas. O Coletivo Feminino mantém uma rede de apoio entre acadêmicas desde 2018 e utiliza esse espaço para compartilhar informações e alertas. A manifestação de agosto levou essas preocupações para fora do grupo; a reunião desta semana colocou estudantes e instituições responsáveis na mesma discussão sobre possíveis respostas.

Um dos mecanismos definidos para dar continuidade a esse diálogo será a criação de um grupo de trabalho com reuniões mensais. A proposta é acompanhar os encaminhamentos definidos, estruturar novas ações e manter a comunicação entre estudantes, Universidade, forças policiais e poder público. Para Liandra, a continuidade desse diálogo será essencial para que a mobilização resulte em ações concretas. “A continuidade desse diálogo precisa acontecer de forma permanente e resultar em ações concretas. Esperamos que a Udesc, os órgãos de segurança pública e as demais instituições responsáveis mantenham canais de escuta com as estudantes e construam medidas efetivas de prevenção, acolhimento e resposta às situações de violência”, conclui.

A manifestação levou as reivindicações das estudantes às ruas; a reunião transformou parte delas em encaminhamentos. A partir de agora, a continuidade dos encontros e o acompanhamento das medidas definidas deverão mostrar como esse processo chega, de fato, à rotina de quem estuda, trabalha e circula pela região.

Texto e Fotos: Matheus Rosa

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