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Os perigos que o dia esconde e a noite revela: histórias de quem vive do mercado adulto

29/10/2026 11:36

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Os tempos áureos da madeira em Lages, entre os anos de 1930 e 1960, com a exploração da araucária (pinheiro-brasileiro), consolidaram o município como um dos principais polos de desenvolvimento econômico de Santa Catarina, atraindo milhares de trabalhadores e gerando uma significativa circulação de dinheiro, o que acabou impulsionando a vida noturna e o mercado do sexo na região.
Boates famosas, como a da saudosa Consuelo, a Tia Consul, como era conhecida, entre outras, ficavam nos arredores do Cemitério Cruz das Almas. Entre as décadas de 1960 e 1970, foi criado o quarteirão do meretrício, no bairro Santa Clara, uma famosa área de prostíbulos e boates de luxo, frequentada por grandes empresários e pela alta sociedade da época.
Nesse local, existiu a boate Palácio Drinks Mários House, onde aconteceu um show com a famosa cantora Gretchen, no auge de sua carreira.
Mas a verdade é que, por trás da popularmente conhecida como mais antiga das profissões, a prostituição, existem histórias de sobrevivência, busca por independência financeira e sonhos interrompidos.
Em Lages, relatos de profissionais que atuam em plataformas digitais e casas de prostituição revelam uma realidade marcada por diferentes escolhas, dificuldades econômicas, exposição, violência e riscos relacionados ao consumo de drogas.
Durante o decorrer da matéria utilizamos nomes fictícios para referir-se as entrevistadas, evitando dessa forma expor a identidade das mesmas.


Da falta de oportunidades à independência financeira

Aos 22 anos, morando em Curitiba e recém-formada em Jornalismo, Kenty iniciou sua transição de gênero (processo pelo qual pessoas trans podem passar, que pode incluir o uso do nome social, mudanças na vestimenta, terapia hormonal ou cirurgias de redesignação sexual, para alinhar o corpo à sua verdadeira identidade).
Segundo ela, no começo, realizar cirurgias plásticas era um dos principais objetivos. Com o passar do tempo, porém, as mudanças proporcionadas pela terapia hormonal contribuíram para que se sentisse cada vez mais realizada com sua aparência e feminilidade.
Hoje, embora ainda considere realizar procedimentos cirúrgicos, sua percepção é diferente.
“Já sou mulher o suficiente, com ou sem a redesignação sexual”, relata.
A experiência evidencia que a transição de gênero não segue um roteiro único. As necessidades, os desejos e as decisões variam de pessoa para pessoa, e a identidade de gênero não depende da realização de cirurgias.
Quando terminou a faculdade de jornalismo em Curitiba, Kenty encontrou dificuldades para conseguir emprego, estava próxima de ficar sem moradia. Sem alternativas imediatas, criou um perfil em um site de acompanhantes e, no mesmo dia, conseguiu dinheiro para abastecer a geladeira.
O medo da violência em atendimentos presenciais fez com que evitasse trabalhar nas ruas e em boates. Mais tarde, ao conhecer mulheres trans que ganhavam dinheiro com conteúdo adulto na internet, decidiu investir nesse caminho.
Nos últimos três anos, segundo seu relato, estruturou a atividade como um negócio e montou uma equipe para dividir as responsabilidades. Apesar da independência financeira conquistada, Kenty ainda sonha em trabalhar no Jornalismo, na televisão.


Exposição na internet pode acompanhar a vida inteira

Para quem produz conteúdo adulto, os riscos também ultrapassam o ambiente presencial. Kenty alerta que fotos e vídeos publicados na internet podem continuar circulando mesmo depois que a pessoa decide abandonar a atividade. 
A divulgação sem autorização e a exposição pública podem afetar relacionamentos, oportunidades profissionais e projetos futuros. Por isso, ela recomenda que quem pretende entrar nesse mercado avalie as consequências e compreenda os limites de controle sobre o material publicado.
A preocupação é especialmente relevante para quem deseja seguir outra carreira. Embora a produção digital possa oferecer autonomia sobre os horários e a organização do trabalho, os rendimentos não são garantidos e dependem de fatores como audiência, custos e gestão.


Dentro das casas, regras e histórias diferentes 

Entre dificuldades financeiras, desilusões amorosas, violência e planos para o futuro, mulheres que trabalham em casas de prostituição contam como chegaram à atividade e como vivem a rotina. 
Quando anoitece em Lages, alguns bares começam a receber clientes em busca de música, bebida, sexo e companhia, onde muitas vezes, fazem papel de psicólogas, ouvindo e aconselhando os clientes. São homens que frequentam esses ambientes para conversar, beber e passar algumas horas longe da rotina. Entre os frequentadores, há boêmios que já conhecem as casas e seus funcionários, assim como aqueles que chegam pela primeira vez.
Em uma casa na periferia da cidade, a noite é marcada pela música, pelas conversas e pelo consumo de bebidas. Enquanto os clientes pedem cerveja wiski e outras bebidas, as mulheres conversam com os frequentadores e algumas recebem uma porcentagem sobre o que é vendido. A comissão se soma ao dinheiro dos programas e faz parte da renda de algumas profissionais.
Foi nesse ambiente que conheci Marta, nome fictício utilizado para preservar a identidade da responsável pelo estabelecimento. Ela está no ramo há sete anos e já trabalhou em outra casa antes de chegar à atual. Ao falar das mulheres que trabalham com ela, diz que procura manter uma relação de proximidade criando vínculos, conhecendo suas histórias, aproximando-se delas.
Durante a visita, observei que a rotina não se resume aos programas. Uma jukebox tocava músicas conhecidas, entre elas canções do Kid Abelha e da Legião Urbana. Em determinado momento, uma das mulheres começou a cantar. A voz chamou minha atenção e perguntei se ela já havia pensado em seguir carreira musical. Ela desconversou e preferiu não aprofundar o assunto. Em outra conversa, comentou apenas que tinha uma relação ruim com o pai. Sem que ela quisesse falar mais, não havia como saber se cantar era apenas um passatempo ou se existia algum plano profissional.
Em uma das paredes, um quadro de Maria Padilha também se destacava. A imagem da entidade, presente em tradições religiosas afro-brasileiras, fazia parte da decoração. A religiosidade estava ali em meio à música, às conversas e ao movimento dos clientes, como mais um elemento do ambiente.
Entre as mulheres com quem conversei, Patrícia conta que, antes de entrar na prostituição, trabalhava com confeitaria e também passou por um supermercado. Ela gostava da profissão e afirma que era boa no que fazia. A mudança aconteceu depois de uma separação, uma desilusão amorosa, que alterou sua vida pessoal e contribuiu para que seguir outro caminho.
A desilusão amorosa foi um dos fatores que marcaram essa mudança. A história de Patrícia mostra como o fim de um relacionamento pode afetar outros aspectos da vida, inclusive gosta dom que faz e pretendo continuar no seu trabalho atual, pois é a maneira de garantir o próprio sustento. Sua experiência, porém, não representa necessariamente a trajetória de outras mulheres que estão na mesma atividade.
Renata, que veio do Paraná, tem outra visão sobre a prostituição. Ela considera a atividade um trabalho e rejeita a ideia de que seja uma maneira fácil de ganhar dinheiro. Durante a conversa, explicou que as despesas continuam chegando, independentemente da situação pessoal de cada mulher. Aluguel, alimentação e outras contas precisam ser pagas, e receber por um programa pode ajudar a resolver uma necessidade financeira imediata. Para ela, isso não significa que o trabalho seja simples.
Renata também falou sobre a relação com os clientes. Segundo ela, existe uma espécie de código de convivência entre as profissionais, que procura evitar conflitos com as companheiras de homens casados que frequentam o estabelecimento. Ela afirma que as mulheres, colegas de profissão, não costumam procurar essas companheiras para contar sobre os encontros, já que são os próprios homens que procuram a casa. Caso uma mulher apareça para acusar uma profissional de ter procurado seu marido, Renata diz que a responsabilidade pela iniciativa é do cliente. A exposição, segundo seu relato, seria considerada apenas se a profissional precisasse se defender.
As regras, no entanto, não eliminam os desentendimentos. Renata relata críticas e julgamentos entre colegas, mostrando que a convivência também pode ser difícil. Mesmo em um ambiente onde as mulheres compartilham a rotina de trabalho, as relações nem sempre são tranquilas.
Em outra noite, visitei uma segunda casa de prostituição, também na periferia de Lages. Foi lá que conversei com Camila, de 23 anos, mãe de dois filhos. Ela conta que começou a se envolver com a prostituição ainda na adolescência e que, nos últimos dois anos, passou a trabalhar com mais frequência.
Diferentemente de Renata, que considera a atividade uma profissão, Camila diz que gostaria de deixar esse trabalho. Antes, tinha planos de estudar e seguir carreira como perita. Estava perto de concluir uma formação voltada à área, mas precisou interromper o projeto depois de enfrentar um problema de saúde.
A experiência afetou sua relação com os cuidados médicos. Camila conta que passou a ter medo de hospitais e que chegou a temer ter contraído HIV. A preocupação com a saúde também aparece quando ela fala dos riscos da prostituição. O receio de adoecer e a necessidade de se proteger passaram a fazer parte de suas preocupações, especialmente diante de situações em que não sabe como um cliente pode reagir.
Durante a conversa, Camila relatou ter sido agredida por um cliente que insistia em manter uma relação sexual sem preservativo. Segundo ela, o homem reagiu com violência diante de sua recusa. O episódio reforçou a preocupação com a própria segurança e mostra uma situação em que o pagamento por um programa não impediu que seus limites fossem desrespeitados.
A profissional tem o direito de decidir o que aceita fazer, e o cliente não pode impor uma prática sexual ou recorrer à força diante de uma recusa. No caso de Camila, a violência relatada se soma ao medo relacionado à saúde e às dificuldades que enfrenta para mudar de vida.
Ela quer retomar os estudos e encontrar outra profissão, mas a decisão não depende apenas de sua vontade. Camila tem dois filhos e precisa garantir o sustento da família. Para deixar a prostituição, precisa encontrar uma fonte de renda que permita pagar as despesas e cuidar das crianças. Enquanto essa possibilidade não se concretiza, continua trabalhando para manter a casa.
As dificuldades também aparecem nas relações de trabalho. Camila conta que, em outros estabelecimentos onde trabalhou, enfrentou problemas com o pagamento de comissões e recebeu valores menores do que considerava devidos. Essas experiências contribuíram para que passasse a desconfiar das relações entre as profissionais e a administração de algumas casas.
Apesar dos conflitos, Camila diz que procura orientar as mulheres mais novas sobre os riscos que podem encontrar. Ela afirma não usar drogas ilícitas, mas relata que algumas profissionais recorrem a essas substâncias durante as noites de trabalho. Segundo seu depoimento, o consumo pode estar relacionado à tentativa de permanecer acordada por períodos prolongados, inclusive em noites em que também há consumo de bebidas alcoólicas. Camila diz que procura alertar as mais jovens sobre os riscos e as consequências desse comportamento.
Na noite em que estive no local, uma mulher estava ali pela primeira vez. Ela permaneceu apenas durante parte do período observado e parecia mais retraída do que algumas das outras profissionais. Não conversei com ela, por isso não havia como afirmar o que pensava sobre aquele ambiente ou por que estava ali. Sua presença, no entanto, chamou minha atenção por mostrar uma mulher que ainda estava conhecendo a rotina, enquanto outras já pareciam familiarizadas com o movimento da casa.

Fora do trabalho, Camila fala principalmente dos filhos e da relação com a mãe, com quem mora. Segundo ela, a mãe sabe que trabalha no bar, mas desconhece os detalhes da atividade. A relação com o pai também é difícil, conforme seu relato, embora ela não tenha entrado em todos os detalhes durante a conversa.
Em outro momento, o assunto mudou para carros antigos. Camila lembrou de um Corcel preto que teve e dos passeios que fazia com o veículo. A conversa deixou por alguns instantes os temas mais difíceis e passou a tratar de uma lembrança pessoal. Ela também falou sobre sua religiosidade: identifica-se com a Umbanda e contou ter perdido dinheiro em um golpe envolvendo um pai de santo ligado à Quimbanda. Depois do episódio, procurou uma cartomante na tentativa de resolver o que acreditava ter sido feito contra ela.
Esses assuntos apareceram durante a conversa ao lado de questões financeiras, familiares e profissionais. São partes de sua história que não se resumem à prostituição e ajudam a conhecer outros aspectos de sua vida, sem que seja necessário atribuir a eles uma explicação para todas as decisões que tomou.
As visitas às duas casas não permitem traçar um perfil de todas as mulheres que trabalham na prostituição em Lages. O que registrei foram as experiências de algumas profissionais que aceitaram conversar comigo e contar parte de suas trajetórias.
Na primeira casa, Patrícia falou sobre a mudança de vida depois de uma separação amorosa. Renata explicou por que considera a prostituição um trabalho e destacou a necessidade de pagar as contas. Marta, responsável pelo estabelecimento, descreveu uma relação de proximidade com as mulheres que trabalham ali. Na segunda casa, Camila relatou violência, problemas com pagamentos e o desejo de retomar os estudos para seguir outra carreira.
As histórias mostram que os motivos para entrar na prostituição e as maneiras de viver essa realidade são diferentes. Desilusões amorosas, dificuldades financeiras e responsabilidades familiares aparecem nos relatos, assim como o desejo de construir um futuro fora da atividade. Para algumas mulheres, o trabalho é uma forma de garantir renda. Para outras, é uma situação da qual gostariam de sair, mas sem condições financeiras para fazer essa mudança imediatamente.
Durante as noites em que estive nos estabelecimentos, observei momentos de descontração, música e conversas, mas também ouvi relatos de medo, conflitos e preocupação com o futuro. Não existe uma única explicação para a entrada na prostituição, assim como não existe uma única maneira de viver essa realidade.
Por trás das portas, há mulheres que cuidam dos filhos, enfrentam problemas familiares, lembram do passado e fazem planos para o futuro. Algumas pretendem continuar na atividade; outras buscam uma oportunidade para sair. Entre as contas que precisam pagar e os caminhos que gostariam de seguir, cada uma enfrenta suas próprias dificuldades e tenta encontrar uma maneira de seguir a vida.


Entre às décadas de 60 e 70 surgiu a boate Palácio Drinks Mários House, onde aconteceu um show com a famosa cantora Gretchen, no auge de sua carreira. 

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